LANÇAMENTO/CD

As lições de Tom Zé

Com a participação de David Byrne e cantoras da nova geração, o artista baiano fecha sua trilogia de estudo e as comemorações do cinqüentenário da Bossa Nova com chave de ouro


Fotos: Divulgação e reprodução

'A Nação mostrou sua fome pelo protótipo, pela aventura sublime da invenção; pelo sonho de sentir um país pobre impondo ao mundo admirado uma nova linguagem', reflete Tom Zé, sobre a Bossa Nova

Talvez uma das melhores surpresas da série de comemorações dos cinquenta anos da Bossa Nova seja o último álbum de Tom Zé, lançado agora pela Biscoito Fino. Enquanto pipocavam especiais na TV, revistas, encartes e coletâneas musicais dedicadas ao assunto - nos quais não faltaram referências saudosistas aos principais personagens e seus epítetos - ''Estudando a Bossa - Nordeste Plaza'' vinha sendo elaborado há alguns anos pelo irreverente tropicalista.

Com produção e direção artística assinados por Daniel Maia, o álbum sugere o fechamento da trilogia, uma vez que já havia lançado ''Estudando o Samba'' (1976) e ''Estudando o Pagode'' (2006). Como revela Tom Zé, os denominadores comums entre os três gêneros são o útero e a ''negritude fértil'', enquanto as diferenças revelam-se nos compartimentos sociais nos quais foram geradas. ''Cada compartimento, com sua escolaridade diferenciada, pôde manejar diferentes quantidades de bits, diferentes níveis de sofisticação, mas em todos está presente a grande força da consubstância negra brasileira'', justifica.

Longe de ser uma mera crítica e tampouco uma homenagem ao cinquentenário da Bossa Nova, o álbum soa mais como um sutil manifesto pautado pela ironia inteligente do baiano. No decorrer das faixas, prevalecem palavras-chave que remetem automaticamente ao movimento (leia-se barquinho, sol e sal, chega de saudade, bada-badi, bada-badá, biom-bom, só para citar algumas), além das citações às musas femininas. Entretanto, o artista deixa claro que está em 2008, ''mas também mostra que 2008 não é 58, nem política nem esteticamente''.

A respeito dos clichês - entre os mais falados, banquinho e violão, amor e flor - que sempre acompanharam o gênero musical, Tom Zé vai além: ''Atualmente há na FAU - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP - uma disciplina chamada ''Conforto''. Os primeiros shows de Bossa Nova eram realizados em escolas, muitas vezes com o artista colocado, visualmente, no mesmo nível de altura da platéia. O banquinho compensava o problema e proporcionava conforto para para que o público visse o cantor. O violão foi o instrumento com o qual João Gilberto criou a principal característica do estilo: a batida, a levada. Já o mar, o amor, a flor, eram o pigmento de um Rio que mostrava ainda certos resquícios de bucolismo, com um Eros que baldeava o sangue daquela juventude brilhante'', filosofa o jovem senhor de 72 anos.

Com auxílio da jornalista, apresentadora e escritora Patrícia Palumbo, o casting que participa das 14 faixas autorais do CD - sendo quatro em parceria com Arnaldo Antunes - vai de Badi Assad a David Byrne, passando, ainda, por Jussara Silveira, Mariana Aydar, Mônica Salmaso, Adréia Diaz, Fabiana Cozza, Fernanda Takai, Márcia Castro, Tita Lima, Marina de La Riva, Zélia Duncan e Anellis Assumpção.

Em ''O Céu Desabou'', por exemplo, Tom Zé inspirou-se na obra ''Os Persas'', de Ésquilo. Acompanhado de Tita Lima, cantora de ''jazz-bossa-dub'' mais conhecida no exterior, a letra aborda o fim da era do rádio com o surgimento da Bossa Nova, cujos primeiros versos indagam ''Mas tu já viste a bossa nova, a nova onda musical?/ Que nhenhenhém boçal, heim?!!''. O artista pondera: ''Sempre me comoveu, com alguma dor e até saudade, o terremoto inimaginável que caiu, da noite para o dia, sobre todo aquele elenco de grandes cantores e cantoras, paixão da vida brasileira, que nos auditórios superlotados da Rádio Nacional, Tupi, Mayrink Veiga, encantavam a Nação. De repente o céu desabou! Só se queria saber da Bossa Nova. Só se falava de Bossa Nova. Para eles, até então monarcas instituídos, foi um pesadelo. Um enterro precoce. Porém, com ela a nação mostrou sua fome pelo protótipo, pela aventura sublime da invenção. Pelo sonho de sentir um país pobre impondo ao mundo admirado uma nova linguagem''.

Em ''Estudando a Bossa'', Tom Zé reinventa o gênero, se reinventa e nos presenteia com canções lindas, líricas e bem-humoradas como quem diz ''chega de saudade''.

Serviço

- CD ''Estudando a Bossa - Nordeste Plaza''
Gravadora - Biscoito Fino
Preço sugerido - R$ 29

(Publicada originalmente em 30/11/2008, na Folha de Londrina)

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