LANÇAMENTO/ENTREVISTA
O 'Recomeço' de Virgínia Rodrigues
Em seu quarto álbum, cantora reforça o talento de transitar entre o lírico e o popular em suas interpretações


O recomeço, para esta intérprete exata, surge recitativo: apenas sua voz de mezzo-soprano e o virtuoso piano de Cristóvão Bastos. Depois de quatro anos sem gravar, Virgínia Rodrigues acrescenta em sua discografia um álbum exaltando o amor dual, lançado agora pela Biscoito Fino e direção artística de Olívia Hime.

No repertório de ''Recomeço'', a baiana que foi apadrinhada por Caetano Veloso entoa clássicos da música brasileira com ares de ineditismo, como na belíssima ''Beatriz'' (Edu Lobo e Chico Buarque), na pouco conhecida ''Eu Te Amo Amor'' (Francis Hime e Vinicius de Moraes), e no grande hino de Dolores Duran ''A Noite do Meu Bem'', só para citar algumas, em que a cantora parece brincar com as variações de médios, graves e agudos que sua classificação vocálica lhe concede.

Virgínia Rodrigues, para quem ainda não foi apresentado, já teve seu nome estampado na fachada de algumas das casas de concertos mais prestigiadas do mundo - leiam-se Carnegie Hall, Barbican Theathre, Hollywood Bowl (L.A.) e Royal Albert Hall (Londres). Tendo sua voz creditada como ''celestial'' pelo jornal The New York Times, a cantora definitivamente faz jus ao que Caetano Veloso assinalou: sua voz não faz distinção entre o lírico e o popular. A seguir, os principais trechos da entrevista que a Virgínia Rodrigues concedeu à FOLHA.

Como se deu o encontro com o Cristóvão Bastos e como foi selecionado o repertório?

Eu fui apresentada a ele por Olivia Hime, diretora artística desse disco. Na ocasião eu falei da vontade de fazer esse disco de voz e piano; uma vontade que eu já tinha desde o segundo CD. Com exceção de três músicas que eu me apaixonei como ''Porto de Araújo'' (Guinga e Paulo César Pinheiro), ''Triste Bahia de Guanabara'' (Novelly e Cacaso) e ''Estrada Branca'' (Vinicius de Moraes e Tom Jobim), as outras músicas que integram o repertório eu já cantava.

Você acredita que os ''ouvidos brasileiros'' têm um pouco de dificuldade de absorver a sonoridade lírica?

Não, não acredito nisso. Eu nasci e me criei no subúrbio. Sou de uma época em que no rádio se tocava tudo, do brega à música clássica. Eu acredito que as pessoas não têm o hábito. Elas não podem gostar daquilo que não conhecem. Existe no Brasil uma coisa chamada monopolização do ouvido alheio. As pessoas colocam somente um segmento musical no rádio. Hoje em dia é assim. Graças a Deus eu cresci numa época diferente no rádio. Os jovens de hoje não têm esse privilégio que as pessoas da minha geração tiveram. A primeira vez que eu ouvi música lírica foi no rádio, com Bidu Sayão cantando ''Canto para uma Só Voz''. E as ''Bachianas'' de Villa-Lobos. Esse era o único meio de comunicação que eu tinha na minha casa. Se fosse nos dias de hoje, eu acho que eu teria me matado (risos). Antes eu ligava para as rádios pedindo música...

Se hoje é monopolização antes era democratização?

Sim, uma monopolização do ouvido alheio. A partir do momento em que eu obrigo você a só ouvir Virgínia Rodrigues, eu estou monopolizando o seu ouvido. Da mesma forma que eu obrigo você a só ouvir bandas de pagode, o mesmo acontece. Eu tiro de você o direito de escolha. E o disco é muito caro, a maioria das pessoas não pode comprar, então, a saída é o rádio.

Falando em disco, o que você ouve de música?

Eu ouço de música brasileira até música indiana, cubana, blues, jazz, música tibetana. Eu só não ouço coisas que não valem a pena, dentro do que eu classifico como música boa.

E para uma música ser boa, em sua opinião, o que ela tem que apresentar?

Qualidade, além de uma boa letra e uma boa poesia... Ela tem que me tocar.

SERVIÇO

- Recomeço
Artista - Virgínia Rodrigues
Gravadora - Biscoito Fino
 
 
(Publicada originalmente em 16/11/2008, na Folha de Londrina)
 
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