INCLASSIFICÁVEIS

 

O cantor Ney Matogrosso retorna ao Cabaré do FILO com espetáculo exuberante de imagens e pegada pop sem saudosismo dos anos 70


Divulgação

'Digo ao público: não se satisfaçam com a minha manifestação, vocês têm que procurar se satisfazer com suas manifestações'
 
 
Quarenta e cinco mil micropaetês dourados bordados manualmente revestirão o corpo dele. Na metade do espetáculo, a figura imagética se despe e sugere a nudez em uma segunda pele tatuada. Hoje e amanhã (18 e 19 de junho), o público do Cabaré do FILO poderá conferir o espetáculo ''Inclassificáveis'', que desde 2007 vem percorrendo - e preenchendo - as principais casas de show do país. Desta matéria-prima resultaram a gravação de um CD em estúdio lançado pela EMI e um DVD ao vivo.

Com uma proposta essencialmente pop, Ney incumbiu o pianista Emílio Carrera (ex-Secos e Molhados), que assina a direção musical, de recrutar músicos paulistanos para acompanhá-lo em faixas que revelam Cazuza, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jorge Drexler, Marcelo Camelo, Arnaldo Antunes, entre outros nomes. O estofo instrumental é compartilhado com Carlinhos Noronha (baixo), Júnior Meirelles (guitarra e violão), Sérgio Machado (bateria), DJ Tubarão (percussão e pick up), Felipe Roseno (percussão) e Emílio Carrera (piano e teclado).

O contratenor mais elaborado da música brasileira retorna ao Cabaré depois de quase dez anos para mostrar a unicidade que se forma quando faz do palco, cenário, figurino, iluminação e platéia as mais puras extensões de sua arte. Confira os principais trechos da entrevista que Ney Matogrosso concedeu à FOLHA.

Embora o contexto seja outro, a sua figura em cena, até andrógina, remonta à época dos anos 70 e 80. Como você chegou a essa proposta visual?

Foi um figurino que a gente fez com muita antecedência, antes de eu ter um disco pronto. Quando é um trabalho pop eu me permito um pouco mais de extravagância, liberdade visual, sabe? E esse macacão dourado surgiu quando eu estava vendo um programa de televisão sobre os Incas, as civilizações latino-americanas, e eu vi que tinha uma determinada época do ano em que eles faziam uma oferenda na qual o rei passava ouro em pó pelo corpo e mergulhava num lago. Achei essa imagem muito interessante, um arquétipo latino-americano que me interessou.

Como você lida com a questão do tempo - temática, aliás, muito presente no repertório do CD? Teve alguma fase da vida em que passou por crise?

Não. Eu tive uma dúvida assim quando beirei os 60. Eu não sabia se podia continuar usando as roupas que uso, se tinha alguma coisa que mudar em mim; eu fiquei inseguro. Mas não durou muito tempo, porque quando fiz 60 anos vi que nada tinha mudado, que eu era o mesmo, que tudo poderia continuar como era e que não tinha essa história não.

Recentemente você comentou que estimula o seu público ao invés de provocá-lo. O que você espera do seu público e o que você acha que seu público espera de você?

Eu não sei o que esperam de mim, mas o que eu percebo é que, antes de chegar lá eles já são receptivos a qualquer coisa que eu possa mostrar de mais provocador. Eles gostam disso. O que eu posso notar é que quanto mais eu libero isso, mais eles gostam. Eu fico imaginando que talvez seja uma maneira de se satisfazerem. Talvez eu faça e diga coisas dentro do show que eles gostariam de fazer e dizer, mas eu também digo o seguinte: ''não se satisfaçam com a minha manifestação, vocês têm que procurar se satisfazer com suas manifestações''.

Quando você ouve o que está sendo proposto de novo na música brasileira, existe alguma figura que te desperte a vontade de dirigir um espetáculo como você já fez em outras ocasiões?

Eu fui ver na semana passada o show do Toni Platão e fiquei extremamente impressionado com a qualidade do que vi ali, sabe? E uma surpresa porque ele tem um material vocal que me surpreendeu. Eu já o tinha visto na televisão antes, mas não tinha observado isso, porque talvez isso não estivesse lá. Agora, no show, eu observei uma potência vocal que me deixou muito impressionado, um roteiro do show muito interessante, uma luz... Então, é uma pessoa que eu até já me coloquei à disposição, se ele precisar de mim, e se eu puder ajudá-lo de alguma maneira, estou às ordens.

Certa vez, Maria Bethânia disse que ''a música ainda pode nos salvar''. Você acredita nisso?

Não sei em que contexto ela falou isso, mas eu acho que a música... nos coloca numa outra dimensão. Ela pode ser curativa. Acho que a música ajuda em muitos sentidos, ela informa, ela pode aliviar tristezas, ela pode muitas coisas. A música é uma manifestação artística muito poderosa; talvez, das mais poderosas.

(Publicada originalmente em 18/06/2008, na Folha de Londrina)
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