Elza para embriagar a alma e celebrar a vida
Cantora promete encantar com 'Beba-me', show que abre o circuito musical do Cabaré do FILO, em Londrina

Renato Forin Jr/Arquivo Pessoal

'Eu acho o seguinte, você tem que comemorar todos os seus dias de vida. Está viva, cuide', diz Elza
As portas do Cabaré do FILO serão abertas hoje (12 de junho), com uma festa baile que celebra as quatro décadas de festival. Entretanto, para muitos, a grande estréia do evento fica a cargo de Elza Soares, que entoará as primeiras notas rascantes amanhã à noite, no show ''Beba-me Ao Vivo'', fruto da divulgação de seu primeiro DVD de carreira, gravado pela Biscoito Fino.

O nome sugere a divertida brincadeira que a cantora fez com a letra de Roberto Martins e Mário Rossi, ''Beija-me''. Além desta, Elza revisita grandes sucessos que ficaram registrados com sua voz única e estilo primoroso de interpretar, como ''Se Acaso Você Chegasse'', de Lupicínio Rodrigues/Felisberto Martins, que deu título ao seu primeiro disco, de 1960, além de novos compositores, como Julinho Rasta e Kátia, em ''Rap da Felicidade''.

Entretanto, o que talvez mais se aproxime de sua poética de vida sejam as palavras de Chico Buarque, em ''Dura na Queda'': ''Vagueia, devaneia/ Já apanhou à beça/ Mas pra quem sabe olhar/ A flor também é ferida aberta/ E não se vê chorar''.

Presença marcante no Cabaré de 1999, ocasião em que foi agraciada por uma chuva de flores logo após o show, a artista deixou um rastro de saudosos fãs ávidos por um pouco mais da figura que foi premiada como a melhor cantora do milênio pela BBC de Londres, em 2000.

Elza Soares. Elza Conceição. Elza é todas em uma só. Elza para embriagar a alma e celebrar a vida. Bebam Elza. Leiam Elza. A seguir, os principais trechos da entrevista que a cantora concedeu à FOLHA por telefone.

Como é retornar à cidade cuja platéia a recebeu com chuva de flores após seu último show em 1999?

Pois é! Foi maravilhoso este banho de rosas. Foi a coisa mais maravilhosa que eu já vi. Estou com uma saudade imensa, com vontade de chegar aí correndo pra rever esta gente maravilhosa. Estou chegando aí!

E o repertório do show vai seguir basicamente o mesmo roteiro do DVD?

É o ''Beba-me''. Mas, a gente sempre tem uma ou outra carta guardada na manga. E isso a gente não revela; fica guardado...

O que a motivou seguir em frente na gravação do DVD ''Beba-me Ao Vivo'' dois dias após uma cirurgia de diverticulite?

Eu acho que foi a maior maldade que fizeram. Eu estava recém-saída do hospital e me disseram que eu tinha que fazer porque já estava tudo pago. Aí foi médico, enfermeira, marido, toda uma equipe pra me ajudar a pisar no palco pra depois um cara me dizer que fez isso tudo pensando que eu iria morrer. Eu disse: ''Você vai ter uma grande surpresa e você vai ver o que Deus preparou pra mim; pois quando Deus risca, ninguém rabisca''. Foi aí que eu mostrei o que a gente é: um pernão, um corpão, matando todo mundo de emoção, graças a Deus.

A que você atribui a aproximação de um público cada vez mais jovem que acompanha a sua carreira? Seria pelas incursões que você já fez em gêneros como hip hop, funk, entre outros?

É muito bonito isso, é muito gostosa essa juventude. Eu fui pedida em casamento no palco, lá em Belo Horizonte. Então, eles ficam tão alucinados, que me vêem de igual pra igual, sem diferença. Quando eu gravei o CD ''Vivo Feliz'', tem muito a ver com isso, do hip hop. Eu canto funk dentro do meu show. Tem de tudo, só não tem ''Créu, créu, créu, créu, créu, créu...'' (risos). Os jovens não estão ali pra ver besteira, pra ver saudosismo, falar do passado chorando. Eu estou ali pra passar energia e levar conhecimento pra este Brasil que ficou muito tempo tampando os ouvidos da juventude. É preciso que alguém vá, diga e mostre pra ele. Aí eu vou com a minha mini-mini-mini-mini-saia escaldante, incrível. E eu, com certeza posso.

Como a Elza Soares se situa na música brasileira?

Eu me sinto como um soldado raso em busca de um quartel mais sábio, mais consciencioso, mais igual. Eu tenho muito medo da fama, pois a fama vive junto com a fome - só mudam duas vogais. Quando você é sargento você manda muito, quando é tenente-coronel, então, nem se fala. O soldado raso está sempre ali dizendo ''sim, senhor'', ''não, senhor''; obediente, respeitoso e sábio.

E você obedece a quem, ou a quê?

Eu obedeço aos mandamentos de Deus - o que Ele determina, eu sigo. E obedeço muito a mim mesma. Me observo e sei o que está errado, o que está certo, mas não porque eu seja sabichona e saiba mais que todos. A gente sabe quando acerta e erra.

É comum, quando você concede entrevistas, referir-se a si própria em terceira pessoa, como ''A Elza é assim'', ''A Elza gosta disso'', e por aí vai. Tem alguma explicação ou é mero hábito?

É mesmo, né? Eu acho que, como eu não canto em casa, a Elza Soares só existe no palco, pois em casa ela está muito distante disso. É pra não confundirem com a Elza da Conceição, então eu digo desta forma. Mas vocês é que fizeram isso, que colocaram - graças a Deus - a Elza Soares lá em cima, com este prestígio todo. Agradeço muito à imprensa por ter me dado tanta coisa que eu gosto. Eu vou pro café da manhã e me lembro de vocês, vou almoçar e me lembro de vocês. Vou pra minha cama que tem lençol - que era o que eu sonhava muito em ter quando era criança além de imaginar que também comeria em um prato de louça algum dia. Tudo isso vocês me deram. Muito obrigada, mesmo!

O seu tempo é sempre o presente, Elza?

Eu sempre digo ''My name is now''. Meu nome é agora. Então é agora que você tem que viver o que Deus te deu. O amanhã deixa por conta do agora. Eu acho o seguinte, você tem que comemorar todos os seus dias de vida. Está viva, cuide. Aproveite cada momento e acredite que o hoje é sublime. Eu quero que as pessoas me vejam no palco. Eu estou convidando todo mundo pra ver uma Elza Soares - ''a'' Elza, aquela de quem eu falo sempre... (risos) - pra se espelhar, pra ter vigor, ter o poder da juventude, ter uma criança viva. E eu a sustento muito bem, e tenho o maior carinho por ela que me mantém viva, maravilhosa e gostosa!

Tem ouvido muita música?

Ouço sim. Gosto muito do Rappa. Aliás, é tão difícil dizer do que eu gosto, pois eu gosto de tanta coisa... Eu gosto de música. Eu não nunca deixo de ouvir o Caetano e o Gil, porque acho que eles representam uma escola tão sábia - musicalmente falando - que você tem que ouvi-los sempre. De internacional também ouço jazz, blues - que são a minha cara - black music. Aliás, é o que dizem: que eu sou uma cantora de black music que canta samba. I'm here!
(Publicada originalmente em 10/06/2008, na Folha de Londrina)
 
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