Outro Vento

Cantor, compositor e instrumentista carioca lança seu primeiro CD no Brasil após longa experiência artística na França

Divulgação

Julio Dain revela: ‘Percebo à minha volta um grande afã artístico; as pessoas buscando qualidade’

A delicadeza de arranjos acústicos e minimalistas com direito a improvisações pontuais. Ora com a formação do conhecido trio jazzístico (piano, contrabaixo e bateria), ora com o quarto elemento (percussão) e mais alguns instrumentos solistas. Entretanto, sem espaço para categorização de um disco clássico. ‘‘Outro Vento’’ veio trazer à cena musical brasileira o cantor, compositor, pianista e violonista carioca Julio Dain em seu primeiro CD lançado pela Biscoito Fino.

  Gravado na França, país onde o artista residiu durante quase dez anos, o álbum revela 12 músicas compostas e interpretadas por ele. Para completar a sonoridade do disco, Dain convidou os músicos Bobby Rangell (sax e flauta), Edivandro Borges (trombone), Edmundo Carneiro (percussão), Fabrizio Fenoglietto (assovio, baixo acústico e elétrico), Ligiana Costa (coro), Line Kruse (violino) e Luís Augusto Cavani (bateria).

  No ano passado, quando retornou ao Rio de Janeiro, além do reconhecimento do público, Dain também foi selecionado no edital Petrobras Cultural 2007, cujo resultado é a produção de seu novo CD, no qual trabalha em paralelo, embora esteja em ‘‘Outro Vento’’ a direção para a qual o artista se volta atualmente. Com exclusividade para a Folha2, Julio Dain falou, entre outros assuntos, sobre suas experiências em Paris, as influências musicais e a situação da indústria da música. Confira os principais trechos da entrevista. 

A opção de ir para França e desenvolver o seu trabalho musical por lá se justifica por quais motivos? 

Eu parti para a França aos 23 anos, com a mochila nas costas e o desejo principal de conhecer e viver experiências no Velho Mundo. Não sabia que passaria quase 10 anos lá. Quando parti, o meu trabalho estava em processo de construção, ainda não estava com a cara atual, ou seja: focado na forma da canção, sendo esta interpretada principalmente ao piano. Na época, eu era pianista e compunha temas instrumentais, por um lado, e escrevia poesias por outro. Estas duas tendências aos poucos foram se fundindo na forma de canções as quais eu cantava inicialmente ao violão. Então, foi na França que amadureci e compus a maior parte do meu repertório e que desenvolvi arranjos onde me acompanho principalmente no instrumento que toco melhor, ou seja, o piano. Assim, acredito que o grande mérito profissional desta minha estadia foi o de ter construído meu trabalho de modo a poder trazê-lo ao Brasil, digamos, ‘‘pronto’’, sob a forma de um CD. 

Acredita que o território brasileiro está saturado? 

Não. Eu, que voltei há apenas um ano, acredito que a música no Brasil está passando por um momento muito promissor. Embora conheça bem mais o que se passa no Rio do que nos outros Estados, percebo à minha volta um grande afã artístico; as pessoas buscando novidade, qualidade. É verdade que estamos no meio de uma crise imensa no mercado fonográfico, que, aliás, é internacional. Não se sabe bem o que vai ser a profissão de músico no futuro. Com certeza ela vai mudar. Mas sou otimista quanto à adoção de novas soluções, formas de desenvolvimento e estímulo à cultura, como as leis de incentivo e o mecenato (do que, aliás, não posso reclamar, pois meu próximo disco está sendo financiado pela Petrobras Cultural). 

São notáveis em ‘‘Outro Vento’’ algumas harmonias que revelam discretas influências de Chico Buarque, Gilberto Gil, Francis Hime e até Djavan, além de jazz e música clássica. Quais outros artistas e vertentes musicais que você considera fundamentais para a sua formação de instrumentista, cantor e compositor? 

Já ouvi muita coisa diferente e acredito que o meu trabalho reflita esta diversidade, de modo que quase seria possível falar das influências, música por música. De modo geral, minhas influências principais são o jazz e a MPB. Da MPB, poderia citar outros nomes consagrados - como Tom Jobim e Caetano Veloso - ou menos consagrados, mas que são referências igualmente importantes para mim - como Arrigo Barnabé, Luis Tatit, Tom Zé ou Jards Macalé. Sempre gostei dos artistas que ousam sair dos padrões, como Frank Zappa ou Thelônious Monk. Quando comecei a tocar piano, meu ídolo era Bill Evans. E ouvi bastante música clássica. 

Você está no Brasil desde o ano passado. Neste período, retornou alguma vez a França? Sendo contemplado no edital Petrobras Cultural 2007, você irá permanecer no Rio de Janeiro durante toda produção do novo CD em paralelo à divulgação de ‘‘Outro Vento’’? Aliás, há possibilidade de antecipar algo sobre o seu novo CD? 

Sim, eu volto regularmente à França, onde tenho uma filha e, também, uma carreira que não pretendo abandonar, apesar de viver no Brasil. A gravação do novo CD será feita no Rio, mas não me impedirá de fazer viagens de divulgação de ‘‘Outro Vento’’. Na verdade, a agenda de shows fora do Rio ainda não está definida. O futuro CD se chama ‘‘Ficção Científica’’ e reunirá 14 composições minhas. Por enquanto estou em período de seleção do repertório e já cheguei a 18. Chamei para co-produzir o disco comigo um produtor carioca excelente: Paulo Brandão. Estou aberto para outras sonoridades, pois acho que o repertório (como sugere o próprio nome do disco) pede isto.

(Publicada originalmente em 01/06/2008, na Folha de Londrina)
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