Vozes atadas pela emoção
DUPLA NACIONALIDADE - Omara Portuondo e Maria Bethânia fazem amanhã, em Curitiba, o penúltimo espetáculo da turnê nacional em que agregam clássicos de músicas populares brasileira e cubana



Em cena, as intérpretes terão momentos solos, mas espetáculo ganha força quando unem vozes: destaque para a versão em espanhol de ‘O Cio da Terra’
Muito mais que extrapolar - e explorar - a territorialidade de Brasil e Cuba, o encontro de Omara Portuondo e Maria Bethânia concentra o passado e o presente dos países que tanto apresentam elos. Nos laços artísticos, as senhoras míticas estreitam seus talentos com tamanha delicadeza em CD/DVD homônimo, lançado recentemente pela gravadora Biscoito Fino.

Depois de estrear no Canecão (RJ), passar por São Paulo, Maceió, Recife, Brasília, Aracajú, Salvador e Fortaleza, chegou, enfim, a vez do Paraná desfrutar do espetáculo que integra a turnê de divulgação do álbum. Amanhã (8 de maio) a partir das 21h, o público poderá conferir, em apresentação única, Omara Portuondo e Maria Bethânia, juntas, no palco do Guairão, interpretando um repertório calcado em clássicos da música popular cubana e brasileira.

Será a penúltima apresentação da turnê nacional em que o cenário, assinado por Gringo Cardia, alinhado à iluminação, de Maneco Quinderé, revelam nuances destes dois países tão intimamente ligados pela África, já que seus povos são formados por descendentes de escravos trazidos da mesma região, além da religião africana ser tão pulsante nas duas nações. A ambientação meio retrô, com flores de chita, lantejoulas, pássaros e fitas fazem pano de fundo para canções cercadas de beleza e simplicidade que revelam as multicores e sonoridades do Brasil e de Cuba.

As duas damas fazem solos individuais e interpretações juntas, tanto em português quanto em espanhol. Guiadas por Jaime Alem e Swami Jr., respectivos maestros de Bethânia e Omara, (ambos ao violão), também estarão no palco João Carlos Coutinho (piano), Jorge Helder (baixo), Cláudio Brito (percussão), Marcelo Costa (percussão) e o cubano Andres Coayo (percussão).

Embora sejam comuns alterações do roteiro em turnês, não deve faltar boa fatia do repertório do CD, como nos envolventes duetos em ''Palabras'' (Marta Valdés), ''Palavras'' (Gonzaguinha), ''Tal Vez'' (de Juan Formell, diretor do lendário grupo de música bailable Van Van, em som, ritmo base da música cubana), ''Só Vendo que Beleza/ Marambaia'' (Rubens Campos e Henricão) - em releitura que vai do samba à salsa e a uma contagiante levada rap de Omara, e o bolero de tirar o fôlego ''Nana para Un Suspiro - Semillita'' (Pedro Luis Ferrer).

Certamente, um dos pontos altos do espetáculo revela-se quando suas vozes são unidas em ''Tierra em Celo'', versão em espanhol por Alfredo Fressia para ''Cio da Terra'' (Chico Buarque e Milton Nascimento). Também vertida para o espanhol por Fressia, a bela releitura para ''Gente Humilde'' (Garoto, Vinicius de Moraes e Chico Buarque).

Em seu momento solo, Omara oferece sucessos do cancioneiro cubano como os boleros ''Vinte AÀos'' (Maria Tereza Vera), ''Lo que me Queda Por Vivir'' (Enrique Benbury) e ''Dos Gardênias'' (Insolino Carillo).

Já Bethânia desvela sozinha canções brasileiras como ''A Bahia Te Espera'' (Chianca de Garcia e Herivelton Martins) e ''Mensagem'' (Aldo Cabral e Cícero Nunes), além de inéditas em sua voz como ''Havana-me'' (Joyce e Paulo Cesar Pinheiro). Outras gratas surpresas de Chico Buarque e Gonzaguinha e a inédita ''Doce'' (Roque Ferreira).

Na coletiva de imprensa realizada em março, na sede da Biscoito Fino, no Rio de Janeiro, as senhoras revelaram suas expectativas com relação ao espetáculo. ''Temos trabalhado muito, mas para mim é sempre pouco. Eu gosto de ensaio e por mim poderíamos ter tido mais tempo para ensaiar - Dona Omara canta seus grandes sucessos e me faz chorar em cada ensaio -, mas o show está feito. Espero que as pessoas cheguem com o coração azul, vermelho e branco, ou seja, Cuba e Bahia'', brincou. A cubana, conhecida no mundo todo após sua participação no documentário ''Buena Vista Social Club'', de Wim Wenders, resumiu o que espera das apresentações: ''Muito amor, muita energia e muita sinceridade''.

De Curitiba, Omara e Bethânia seguem com o espetáculo para Porto Alegre, no próximo sábado, onde encerram a turnê nacional. Após a série de show pelas principais capitais brasileiras, elas partirão para a Argentina e Chile.

Este encontro raro e único entre duas culturas tão intimamente ligadas e, mais que isso, entre duas grandiosas intérpretes de veia cênica e personalidades distintas, reflete o respeito e a admiração mútua pela história de Cuba e Brasil e o produto de sua arte.

(Publicada originalmente em 07/05/2008, na Folha de Londrina)


Virtuose do CHORO contemporâneo

ENTREVISTA - Nascido na Lapa, grupo da nova geração de chorões e sambistas lança o segundo CD calcado na improvisação e arranjos excepcionais


Divulgação

Novo trabalho se destaca pela variedade de gêneros, com releituras de antigos sucessos e participações especiais
Um pouco de história. Na década de 30, o chorinho teve intensa participação nas rádios transformando canções como ''Tico-tico no Fubá'' e ''Brasileirinho'' em verdadeiros hinos nacionais.

Hoje, enquanto a maior fatia das emissoras oferece aos seus ouvintes uma programação atulhada de músicas ''vendáveis'', o gênero instrumental vai de encontro a esse panorama e se revitaliza graças à devoção de jovens músicos que valorizam a riqueza de suas raízes. Assim ocorreu com o ''Tira Poeira'', grupo formado por sambistas e chorões que lançou recentemente o CD ''Feijoada Completa'', pela Biscoito Fino.

Cinco anos após o primeiro disco, Caio Márcio (violão), Henry Lentino (bandolim), Samuel Oliveira (saxofones), Fábio Nin (violão de 7 cordas) e Sérgio Krakowski (pandeiro), despertam a atenção pela variedade de gêneros apresentadas neste trabalho atual. É neste rico material sonoro que Maria Bethânia, Lenine, Olívia Hime e DJ Sany Pitbull também navegam ao participarem de algumas faixas do CD. Belíssimas releituras de ícones como ''Gente Humilde'' (Chico Buarque, Garoto e Vinicius de Moraes), ''Trenzinho Caipira'' (Heitor Villa-Lobos), ''Atrás da Porta'' (Francis Hime e Chico Buarque) se encontram ao lado da inédita de Baden Powell, ''Canto de Yansã''.

Improviso, arranjos elaborados e destreza são alguns predicados que este jovem grupo, originado na Lapa (bairro boêmio carioca), utiliza sem mutilar a tradição. Sérgio Krakowski, percussionista do ''Tira Poeira'', concedeu uma entrevista com exclusividade para a Folha2. Confira, a seguir, os principais trechos.

Embora o alicerce de vocês esteja calcado no regional, são perfeitamente notáveis as nuances de vários gêneros musicais, como a bossa nova, jazz, samba, funk, etc, entretanto mantendo uma linearidade. Você atribui isso a predileção do grupo pelas experimentações ou pela diversidade de influência de cada integrante?

Acho que a nossa fonte primeira foi o choro. É de onde nós viemos e não deixamos de carregar essa bagagem mesmo que neste segundo disco não tenhamos gravado nenhum choro. A idéia foi escolher um repertório de canções e interpretá-las a nossa maneira. Depois de gravar o primeiro disco, já tínhamos feito os arranjos de Atrás da Porta e Consolação, além de tocarmos também o Chega de Saudade nos nossos shows. Percebíamos que o público recebia muito bem estas músicas e que mesmo sem cantarmos as letras, elas emocionavam implicitamente. Resolvemos, então, estender isso e criar um repertório todo baseado neste conceito.

Como nascem os arranjos das novas versões, como, entre outros casos, ''Trenzinho Caipira'' (Villa-Lobos), ''Eleanor Rigby'' (John Lennon e Paul McCartney), e até a inédita, ''Canto de Yansã'' (Baden Powell)? Todos integrantes assinam as criações? E o repertório de ''Feijoada Completa'', como foi definido?

O repertório teve como mote as canções. Algumas delas já tinham um arranjo criado coletivamente pelo grupo (Atrás da Porta, Consolação e Trenzinho Caipira). O arranjo das outras foi individual. Cada integrante se propôs a fazer um, dois ou até três arranjos e apresentar para o grupo. A partir daí todos deram palpites e os arranjos sofreram modificações. De qualquer forma, todos já estamos tão acostumados com a linguagem do grupo que mesmo fazendo individualmente os arranjos, eles saíram com a identidade do ''Tira Poeira''.

Maria Bethânia, que interpreta ''Gente Humilde'' (Garoto/Chico Buarque/Vinicius de Moraes), e que também convidou vocês a participarem do CD e DVD ''Brasileirinho'', surge como uma verdadeira chancela de qualidade musical. Como aconteceu o encontro entre vocês?

Foi através da gravadora. A Bethânia já era da Biscoito Fino e ganhou o nosso primeiro disco. Ela ficou muito feliz com o nosso trabalho e então surgiram os convites de arranjar o ''Padroeiro do Brasil'' para o CD e posteriormente de fazer o show e gravar o DVD. Foi uma grande honra e uma aprendizagem sem preço. O arranjo foi feito pelo nosso bandolinista Henry Lentino que, inclusive, incluiu algumas referências ao choro.

Novas interpretações de canções já gravadas soam como uma linguagem autoral, mas vocês também trabalham com composições próprias?

Ainda não estamos trabalhando com as nossas composições, mas isso virá no futuro.

(Entrevista publicada originalmente em 04/05/2008, na Folha de Londrina)

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