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ENTREVISTA
O Zoombido de Moska em CD e DVD
Músico inicia série com a primeira temporada do programa veiculado pelo Canal Brasil e seus ilustres convidados

Fotos: Divulgação

‘Eu me preparo muitíssimo para aprender a música do outro. Essa é a minha viagem no Zoombido’. confessa Moska


Moska brinca com a fotografia: aqui, imagens distorcidas de Zeca Baleiro, um dos parceiros do trabalho
Como um móbile solto no furacão, Moska exemplifica um dos perfis cada vez mais recorrentes em artistas contemporâneos: ele canta, compõe, toca, produz, escreve, está à frente de um projeto de samba na Lapa, e livrou-se das amarras das gravadoras. Além disso, há quase quatro anos decidiu ampliar o seu leque de expressão ao aceitar o convite para comandar um programa que reúne encontros musicais, conversa, fotografia, cinema e duetos. Assim surgiu o Zoombido - Para se Fazer uma Canção, veiculado pelo Canal Brasil (Globosat), que agora tem parte de sua primeira temporada lançada em CD e DVD pela gravadora Biscoito Fino.

Como é que se faz uma canção? O que sente um compositor quando cria? Qual o sentido da música em sua vida? Que tipo de atmosfera precisa para escrever uma letra? Como foi a primeira vez que a música invadiu sua vida, ainda na infância? Mergulhados nessa atmosfera incitante, Lenine, Chico César, Pedro Luis, Mart'nália, Zeca Baleiro e Zeca Pagodinho (e seus convidados) participam do primeiro volume da série.

Questionado a respeito dos convidados dessa temporada iniciante, Moska revela em entrevista exclusiva à FOLHA que foi uma seleção afetiva. ''Com certeza, eu procurei primeiro os amigos. Aqueles a quem eu poderia pedir para que fizessem essa experiência comigo. Quando eu comecei o Zoombido, eu não sabia como ele iria ficar. Agora a gente vai para a 4 temporada e os critérios são muitos: desde uma lista que o Canal Brasil faz pra mim com os artistas que eles consideram mais próximos do perfil deles, até a minha própria lista afetiva, de ídolos, de gente nova. É sempre um equilíbrio que leva a isso'', comenta.

A cada episódio, três canções são executadas - à escolha dos autores - e apresentadas no formato voz e instrumento. Com rica composição de planos e contra-planos, o programa flui sob uma ótica poética de imagens e sons, uma vez que Moska ''brinca'' com a fotografia como se as lentes revelassem algo além do conjunto imagético óbvio: as imagens distorcidas formadas através do tijolo de vidro pelo qual fotografa.

''Eu não uso efeito de computador pra distorcer as minhas imagens. As distorções são da própria realidade. Eu estou tentando mostrar que a realidade já é uma distorção, também no sentido poético. As letras que eu escrevo exigem do leitor/ouvinte que ele modifique um pouco o olhar dele. Eu mesmo acredito que viver é renovar nosso olhar para o mundo o tempo todo. 'O seu olhar melhora o meu', como escreveu Arnaldo Antunes'', reflete o artista.

Na primeira canção executada, o autor apresenta-se sozinho. Na segunda, Moska surge em cena tirando fotos através do tijolo de vidro. Na terceira, acontece o dueto que, como revela Moska, é o momento mágico do programa: ''Eu também me preparo muitíssimo para aprender com louvor a música do outro. É o meu estudo da música dele, a minha admiração pela música dele. Essa é a minha ''viagem'' no Zoombido. E, as perguntas que faço no decorrer do programa são como uma preparação para esse momento sublime que é o encontro''.

Ainda na primeira temporada, que será lançada nos demais volumes, participam Gilberto Gil, Celso Fonseca, Otto, Jorge Mautner, Flávio Venturini, Zélia Duncan, Frejat, Nando Reis e Leoni. ''A idéia é lançar o restante até o final do ano. Fundamental para mim, para Biscoito Fino e Canal Brasil, é que se torne um produto popular, no sentido de que é um documento grandioso da música brasileira. É uma espécie de catálogo do nosso momento. Um pouco do retrato do Brasil'', relata o apresentador, lembrando que a quarta temporada (inédita) terá início em maio.

Tem-se a impressão de que Moska se reconhece em cada um de seus entrevistados engrandecendo ainda mais o mosaico do artista contemporâneo que é.

SERVIÇO

- CD e DVD Zoombido - Para se Fazer uma Canção, volume 1
Gravadora - Biscoito Fino
Quanto - R$ 43 (DVD) e R$ 29,00 (CD)

(Publicada originalmente em 22/03/2009, na Folha de Londrina)

LANÇAMENTO/CD

As lições de Tom Zé

Com a participação de David Byrne e cantoras da nova geração, o artista baiano fecha sua trilogia de estudo e as comemorações do cinqüentenário da Bossa Nova com chave de ouro


Fotos: Divulgação e reprodução

'A Nação mostrou sua fome pelo protótipo, pela aventura sublime da invenção; pelo sonho de sentir um país pobre impondo ao mundo admirado uma nova linguagem', reflete Tom Zé, sobre a Bossa Nova

Talvez uma das melhores surpresas da série de comemorações dos cinquenta anos da Bossa Nova seja o último álbum de Tom Zé, lançado agora pela Biscoito Fino. Enquanto pipocavam especiais na TV, revistas, encartes e coletâneas musicais dedicadas ao assunto - nos quais não faltaram referências saudosistas aos principais personagens e seus epítetos - ''Estudando a Bossa - Nordeste Plaza'' vinha sendo elaborado há alguns anos pelo irreverente tropicalista.

Com produção e direção artística assinados por Daniel Maia, o álbum sugere o fechamento da trilogia, uma vez que já havia lançado ''Estudando o Samba'' (1976) e ''Estudando o Pagode'' (2006). Como revela Tom Zé, os denominadores comums entre os três gêneros são o útero e a ''negritude fértil'', enquanto as diferenças revelam-se nos compartimentos sociais nos quais foram geradas. ''Cada compartimento, com sua escolaridade diferenciada, pôde manejar diferentes quantidades de bits, diferentes níveis de sofisticação, mas em todos está presente a grande força da consubstância negra brasileira'', justifica.

Longe de ser uma mera crítica e tampouco uma homenagem ao cinquentenário da Bossa Nova, o álbum soa mais como um sutil manifesto pautado pela ironia inteligente do baiano. No decorrer das faixas, prevalecem palavras-chave que remetem automaticamente ao movimento (leia-se barquinho, sol e sal, chega de saudade, bada-badi, bada-badá, biom-bom, só para citar algumas), além das citações às musas femininas. Entretanto, o artista deixa claro que está em 2008, ''mas também mostra que 2008 não é 58, nem política nem esteticamente''.

A respeito dos clichês - entre os mais falados, banquinho e violão, amor e flor - que sempre acompanharam o gênero musical, Tom Zé vai além: ''Atualmente há na FAU - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP - uma disciplina chamada ''Conforto''. Os primeiros shows de Bossa Nova eram realizados em escolas, muitas vezes com o artista colocado, visualmente, no mesmo nível de altura da platéia. O banquinho compensava o problema e proporcionava conforto para para que o público visse o cantor. O violão foi o instrumento com o qual João Gilberto criou a principal característica do estilo: a batida, a levada. Já o mar, o amor, a flor, eram o pigmento de um Rio que mostrava ainda certos resquícios de bucolismo, com um Eros que baldeava o sangue daquela juventude brilhante'', filosofa o jovem senhor de 72 anos.

Com auxílio da jornalista, apresentadora e escritora Patrícia Palumbo, o casting que participa das 14 faixas autorais do CD - sendo quatro em parceria com Arnaldo Antunes - vai de Badi Assad a David Byrne, passando, ainda, por Jussara Silveira, Mariana Aydar, Mônica Salmaso, Adréia Diaz, Fabiana Cozza, Fernanda Takai, Márcia Castro, Tita Lima, Marina de La Riva, Zélia Duncan e Anellis Assumpção.

Em ''O Céu Desabou'', por exemplo, Tom Zé inspirou-se na obra ''Os Persas'', de Ésquilo. Acompanhado de Tita Lima, cantora de ''jazz-bossa-dub'' mais conhecida no exterior, a letra aborda o fim da era do rádio com o surgimento da Bossa Nova, cujos primeiros versos indagam ''Mas tu já viste a bossa nova, a nova onda musical?/ Que nhenhenhém boçal, heim?!!''. O artista pondera: ''Sempre me comoveu, com alguma dor e até saudade, o terremoto inimaginável que caiu, da noite para o dia, sobre todo aquele elenco de grandes cantores e cantoras, paixão da vida brasileira, que nos auditórios superlotados da Rádio Nacional, Tupi, Mayrink Veiga, encantavam a Nação. De repente o céu desabou! Só se queria saber da Bossa Nova. Só se falava de Bossa Nova. Para eles, até então monarcas instituídos, foi um pesadelo. Um enterro precoce. Porém, com ela a nação mostrou sua fome pelo protótipo, pela aventura sublime da invenção. Pelo sonho de sentir um país pobre impondo ao mundo admirado uma nova linguagem''.

Em ''Estudando a Bossa'', Tom Zé reinventa o gênero, se reinventa e nos presenteia com canções lindas, líricas e bem-humoradas como quem diz ''chega de saudade''.

Serviço

- CD ''Estudando a Bossa - Nordeste Plaza''
Gravadora - Biscoito Fino
Preço sugerido - R$ 29

(Publicada originalmente em 30/11/2008, na Folha de Londrina)

LANÇAMENTO/ENTREVISTA
O 'Recomeço' de Virgínia Rodrigues
Em seu quarto álbum, cantora reforça o talento de transitar entre o lírico e o popular em suas interpretações


O recomeço, para esta intérprete exata, surge recitativo: apenas sua voz de mezzo-soprano e o virtuoso piano de Cristóvão Bastos. Depois de quatro anos sem gravar, Virgínia Rodrigues acrescenta em sua discografia um álbum exaltando o amor dual, lançado agora pela Biscoito Fino e direção artística de Olívia Hime.

No repertório de ''Recomeço'', a baiana que foi apadrinhada por Caetano Veloso entoa clássicos da música brasileira com ares de ineditismo, como na belíssima ''Beatriz'' (Edu Lobo e Chico Buarque), na pouco conhecida ''Eu Te Amo Amor'' (Francis Hime e Vinicius de Moraes), e no grande hino de Dolores Duran ''A Noite do Meu Bem'', só para citar algumas, em que a cantora parece brincar com as variações de médios, graves e agudos que sua classificação vocálica lhe concede.

Virgínia Rodrigues, para quem ainda não foi apresentado, já teve seu nome estampado na fachada de algumas das casas de concertos mais prestigiadas do mundo - leiam-se Carnegie Hall, Barbican Theathre, Hollywood Bowl (L.A.) e Royal Albert Hall (Londres). Tendo sua voz creditada como ''celestial'' pelo jornal The New York Times, a cantora definitivamente faz jus ao que Caetano Veloso assinalou: sua voz não faz distinção entre o lírico e o popular. A seguir, os principais trechos da entrevista que a Virgínia Rodrigues concedeu à FOLHA.

Como se deu o encontro com o Cristóvão Bastos e como foi selecionado o repertório?

Eu fui apresentada a ele por Olivia Hime, diretora artística desse disco. Na ocasião eu falei da vontade de fazer esse disco de voz e piano; uma vontade que eu já tinha desde o segundo CD. Com exceção de três músicas que eu me apaixonei como ''Porto de Araújo'' (Guinga e Paulo César Pinheiro), ''Triste Bahia de Guanabara'' (Novelly e Cacaso) e ''Estrada Branca'' (Vinicius de Moraes e Tom Jobim), as outras músicas que integram o repertório eu já cantava.

Você acredita que os ''ouvidos brasileiros'' têm um pouco de dificuldade de absorver a sonoridade lírica?

Não, não acredito nisso. Eu nasci e me criei no subúrbio. Sou de uma época em que no rádio se tocava tudo, do brega à música clássica. Eu acredito que as pessoas não têm o hábito. Elas não podem gostar daquilo que não conhecem. Existe no Brasil uma coisa chamada monopolização do ouvido alheio. As pessoas colocam somente um segmento musical no rádio. Hoje em dia é assim. Graças a Deus eu cresci numa época diferente no rádio. Os jovens de hoje não têm esse privilégio que as pessoas da minha geração tiveram. A primeira vez que eu ouvi música lírica foi no rádio, com Bidu Sayão cantando ''Canto para uma Só Voz''. E as ''Bachianas'' de Villa-Lobos. Esse era o único meio de comunicação que eu tinha na minha casa. Se fosse nos dias de hoje, eu acho que eu teria me matado (risos). Antes eu ligava para as rádios pedindo música...

Se hoje é monopolização antes era democratização?

Sim, uma monopolização do ouvido alheio. A partir do momento em que eu obrigo você a só ouvir Virgínia Rodrigues, eu estou monopolizando o seu ouvido. Da mesma forma que eu obrigo você a só ouvir bandas de pagode, o mesmo acontece. Eu tiro de você o direito de escolha. E o disco é muito caro, a maioria das pessoas não pode comprar, então, a saída é o rádio.

Falando em disco, o que você ouve de música?

Eu ouço de música brasileira até música indiana, cubana, blues, jazz, música tibetana. Eu só não ouço coisas que não valem a pena, dentro do que eu classifico como música boa.

E para uma música ser boa, em sua opinião, o que ela tem que apresentar?

Qualidade, além de uma boa letra e uma boa poesia... Ela tem que me tocar.

SERVIÇO

- Recomeço
Artista - Virgínia Rodrigues
Gravadora - Biscoito Fino
 
 
(Publicada originalmente em 16/11/2008, na Folha de Londrina)
 
ENTREVISTA

O lado B de Francis Hime por outras vozes

Um time escolhido a dedo interpreta 15 canções pouco conhecidas do compositor, entre eles, Zeca Pagodinho, Ivete Sangalo e Mart'nália


Divulgação/Guilherme Viotti

Prestes a comemorar 70 anos, Francis Hime prepara disco de inéditas para o ano que vem
Ao ouvir determinada música em sua versão original, você já parou para imaginar que ela também renderia uma bela interpretação na voz de outro artista? O maestro, compositor, cantor e arranjador Francis Hime não só imaginou como tornou verdade em Álbum Musical 2, lançado pela gravadora Biscoito Fino.

Com produção de Olívia Hime, o disco contempla 15 canções de sua carreira consideradas ''lado B'', agora registradas em novos timbres e arranjos. Zeca Pagodinho empresta a voz para ''Amor Barato''; Ivete Sangalo canta ''Quadrilha''; Lenine entoa ''Um Carro de Boi'' (esta, a única parceria de Francis com Gilberto Gil); Adriana Calcanhotto interpreta ''Saudade de Amar'', Simone canta ''Maravilha'', Mart'nália reverencia ''Pau-Brasil''; Luiz Melodia homenageia ''O Rei de Ramos''. Outros grandes nomes da música brasileira também integram este segundo volume - que teve início em 1997 com o Álbum Musical 1. Entretanto, certamente três interpretações saltam aos ouvidos tamanha beleza: Mônica Salmaso em ''Mariposa''; Renato Braz em ''Grão de Milho'' e Bibi Ferreira, na única inédita do CD ''Viajante das Almas''.

Sobre os detalhes do disco e projetos em andamento, Francis Hime falou com exclusividade para a Folha2. Confira os principais trechos da entrevista.

Vamos falar sobre o conceito que envolveu a seleção do repertório do Álbum Musical 2?

Na verdade, neste ano, o meu projeto era fazer um disco de inéditas. Mas, minha mulher e produtora Olívia (Hime) me convenceu a fazer nesse formato que resgata músicas lá de trás que não ficaram muito conhecidas em sua maioria, o que confere certo ineditismo para grande parte dos ouvintes. A idéia foi esta, de pegar este período do começo da minha carreira até meados da década de 80 e com músicas das quais eu gosto muito e que eu gostaria de ouvir nas vozes de outros cantores. Ao mesmo tempo, tentando fazer um leque amplo de parceiros.

Para os intérpretes, a gente pode dizer que houve uma ''escolha afetiva'', ou seja, que extrapola os vínculos profissionais?

Sim, exatamente. Alguns cantores eu já tinha em mente. Por exemplo, eu sempre quis ouvir ''Mariposa'' (parceria do maestro com Olívia Hime) na voz de Mônica Salmaso. Então, tem o peso afetivo, além do gosto dos cantores que foi também determinante. Outro critério foi bem intuitivo. Eu fiquei imaginando como seria Ivete Sangalo - que eu não conheço pessoalmente - cantando ''Quadrilha'' (parceria com Chico Buarque), mas tinha certeza de que seria um espetáculo.

Na verdade, também seria uma forma de os cantores de apropriarem um pouco dessas composições...

Exatamente. A interpretação deles faz com que a música, de certa forma, fique como meia parceria. E, às vezes, com direito a mudanças, como foi o caso do Zeca Pagodinho que mudou uma frase do ''Amor Barato'' (parceria com Chico Buarque) e eu achei tão bom. Então, este disco é também uma espécie de oportunidade de encontro amplo de pessoas para festejar a música brasileira. porque é tão bom fazer música. É um disco de produção simples, no sentido instrumental com uma formação mais enxuta, que de certa forma me permitiu agilidade maior na gravação.

É interessante que, embora o CD se pareça com um tributo a Fracis Hime, você participa inteiramente do projeto, nas músicas, tocando piano, elaborando os arranjos...

Eu não vejo tanto como um tributo, pois quando você atua como eu atuei ativamente, deixa de ser tributo. É um trabalho sobre a minha obra. Alguns até chamam e podem chamar de tributo. Mas, eu vejo mais como um trabalho meu sobre essas canções que ficaram lá esquecidas. E, se eu não o fizesse, provavelmente continuariam esquecidas.

Ano que vem você completará 70 anos. Podemos esperar um disco de inéditas?

Já estou pensando aqui no que eu vou fazer. Quero comemorar muito estes ''setentinhas'' (risos). A gente está arquitetando o possível lançamento de uma caixa com toda minha obra. Além disso, em novembro, está programada a execução do meu concerto pra violão e orquestra, que está inédito, e que vai ser tocado por Fábio Zanon - que é o melhor violonista do Brasil na área clássica - com a Osesp. E tem a Ópera do Futebol, um projeto de dez anos, que estou terminando a revisão da orquestração. Agora é só correr atrás de patrocínio - a parte mais difícil (risos).
PONTO DE VISTA
Bossa Nova hi-tech

Foto: Divulgação

A história e as histórias da Bossa Nova são apresentadas no decorrer do pavilhão em fragmentos norteados pela tecnologia
Aos frustrados com a possibilidade de não ver João Gilberto ao vivo nos seletos shows ocorridos recentemente em São Paulo (14 e 15 de agosto), visitar a exposição ''Bossa na Oca'' pode ser uma boa pedida. Ou não, dependendo da proposta.

Se for para passear na seara bossa-novista, a mostra com curadoria de Carlos Nader e Marcelo Dantas revela um complexo panorama histórico audiovisual desta revolução estética que modificou a música popular entre 1958 e 1964. Contudo, se for ouvir alguma palavra de João Gilberto a respeito do gênero, o barquinho vai por água abaixo. E isso deixa uma lacuna, levando em conta a importância de sua figura emblemática (e ainda atuante) para o período.

A história e as histórias da Bossa Nova são apresentadas no decorrer do pavilhão em fragmentos norteados pela tecnologia. Dezenas de projeções, documentários, sons em confluência, imagens e mais imagens. Uma produção pirotécnica - que cada vez mais tem sido uma constante nas grandes mostras contemporâneas - e interativa, convidando o visitante a, por exemplo, pular da faixa ''Modinha'' (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) para a ''Canção do Amor Demais'' (Tom Jobim e Vinicius de Moares) - interpretadas por Elizete Cardoso - apenas com o calor da mão posicionada frente às jukeboxes.

O belo cenário onde o estilo musical ganhava corpo foi reproduzido com o sinuoso desenho do calçadão e a areia de Copacabana banhados pela luz do passar de um dia. O reencontro de Tom Jobim, Astrud Gilberto, Frank Sinatra, Ella Fitzgerald, Vinicius de Moraes, Elis Regina, Hermeto Pascoal entre outros nomes ocorre em um palco escuro graças a uma nova técnica de projeção holográfica que possibilitou a versão expandida de ''Garota de Ipanema'', música que nunca tinham tocado juntos.

Proferida por Caetano Veloso, a frase ''Melhor que o silêncio, só João Gilberto'' faz as honras de uma câmara anecóica - espaço de silêncio absoluto, sem qualquer reverberação - preparando os visitantes para ouvir o silêncio existente entre as notas musicais. Ainda no passeio é possível conferir o documentário dirigido por Carlos Nader ''Clarão'', apresentado em sessões contínuas; um enorme mar em movimento projetado na cúpula da Oca enquanto vinis originais são tocados; e outros três filmes que revelam o universo de Tom Jobim, Vinicius de Moraes e outros personagens.

Cinquenta anos de Bossa Nova. Um período de boemia, tardes tranquilas de sol, simplicidade nos arranjos e complexidade de harmonias. Período do cantar baixinho, de belas vozes e violões, de comemorar a vitória da Copa do Mundo. Cinco décadas que revelam o quanto esse jeito de cantar e tocar cruzou fronteiras e influenciou a música em outros continentes. O mais interessante nessa história toda: numa época cujas palavras download, laptop, pen-drive, celular e wi-fi nem sequer existiam. Bastava um banquinho e um violão.

SERVIÇO

- Bossa na Oca
Quando - De terça a domingo, até 07 de setembro
Onde - Pavilhão Engenheiro Lucas Nogueira (OCA) - Parque do Ibirapuera, em São Paulo

Quanto - R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)

Mais informações - 4003-2050

(Publicada originalmente em 24/08/2008, na Folha de Londrina)
Música e economia

Publicação detalha as cadeias relacionadas a essa vertente cultural; autor ministra seminário em Londrina na próxima quinta-feira

Divulgação

Luiz Carlos Prestes Filho explica: ‘O esforço não é para valorizar só o entretenimento; além da diversão existe o valor simbólico, o cultural e o econômico’
Você já parou para pensar no caminho que as músicas percorreram para que chegassem a seu formato final? Não estamos falando de transmissões em ondas curtas ou longas, tampouco de compressão de arquivos sonoros. O ponto em destaque é a ''Cadeia Produtiva da Economia da Música'', um complexo híbrido constituído por diversas redes de serviços como indústria fonográfica, tecnologia digital, pirataria, direitos autorais, política públicas, radiodifusão e mídia impressa, espetáculos e shows, indústrias de instrumentos musicais e formação de platéia, entre outros.

O tema também dá título ao livro de Luiz Carlos Prestes Filho, que estará na próxima quinta-feira em Londrina para ministrar o seminário ''Economia da Cultura'', uma realização da Casa de Cultura da UEL em parceria com o Sesc Paraná e apoio da Associação Comercial e Industrial de Londrina. Nesta entrevista à FOLHA, o autor fala da publicação, que será lançada durante o evento.

Como e quando nasceu o projeto do livro?

O livro resultou do estudo ''Cadeia Produtiva da Economia da Música'', realizado pelo Núcleo de Economia da Cultura da Incubadora Cultural do Instituto Gênesis da PUC-Rio. Iniciamos o trabalho quando concluímos o levantamento sobre a contribuição da cultura para a formação do Produto Interno Bruto (PIB) do Estado do Rio de Janeiro. Verificamos que as atividades relacionadas com a Economia da Música, além de importantes na geração de emprego e renda, tinham seu ciclo produtivo completo no Estado.

Em sua opinião, o que as pessoas conhecem sobre este assunto?

Depois de oito anos de pesquisas e a publicação do livro ''Economia da Cultura - a força da indústria cultural do Rio de Janeiro'', em que apresentamos a metodologia para levantar informações estratégicas do setor, o tema tomou conta do País. Nos Estados mais desenvolvidos é considerado importante pelos gestores públicos. As Federações das Indústrias do Rio de Janeiro, Pernambuco, Sergipe e as Associações Comerciais do Rio de Janeiro e Paraná estão realizando atividades neste campo. No Rio Grande do Sul, a Universidade Federal lançou um curso específico sobre Economia da Cultura. O cenário hoje é bem mais positivo. A época da abertura de picadas no mato cerrado terminou!

Você fala que ''Música é muito mais que um conjunto melódico destinado a entreter ouvintes'', uma declaração que sugere a apresentação da música também como produto comercial. Você acredita que o valor artístico-cultural acaba tornando-se secundário nos dias atuais?

O valor artístico-cultural nunca é secundário. Villa-Lobos recebia muito pouco em arrecadação de direitos autorais. Após seu falecimento, sua música ganhou reconhecimento internacional; sua execução faz entrar no Brasil U$ 400 mil todos os anos, que sustentam a Academia Brasileira de Música (ABM). O que não é reconhecido hoje pode ser importante ativo econômico amanhã.

A tecnologia digital é uma das grandes responsáveis pela reviravolta na economia das gravadoras, como a internet e seus programas de downloads, e a própria pirataria. Essa situação pode ser revertida?

Os atuais fonogramas saíram da prisão, circulam livremente. Não existem fronteiras para a troca de informações e a música está inserida nesse contexto. Mudou o modelo de negócios. Tentar reverter a situação é o mesmo que tentar trazer de volta os tempos das caravelas. Temos que regulamentar o mundo da internet. Temos que pensar este novo mundo em que conhecimento e tecnologia são os principais ativos econômicos.

(Publicada originalmente em 03/08/2008, na Folha de Londrina)
 
'Tudo que falta na humanidade'

É assim que Jards Macalé define 'música'. E é exatamente um pouco disso que ele traz em 'Macao', seu novo CD

Divulgação

‘A música brasileira é uma coisa difícil de executar, não é a toa que tem um holofote em cima dela’, comenta o artista

Nada de homenagem a Bossa Nova. Nem de mergulhar num mote que reverencie algo em específico. O norte de 'Macao', novo álbum de Jards Macalé que sai pela Biscoito Fino, é justamente é ir para o sul, ou seja, negar qualquer tipo de conceito. Contudo, é um convite para sua intimidade essencialmente cantada e tocada em voz e violão, o que fica evidente no título que dá nome ao CD já que trata-se do apelido do artista.

Aproveitando que intimidade é a proposta da vez, nada mais interessante que convidar o amigo Cristóvão Bastos para assinar a direção musical de Macao, além de seleiconar o grupo de músicos sofisticados para acompanhá-los: João Lyra, Dirceu Leite, Jurim Moreira, Rômulo Gomes, Ricardo Pontes, Alceu Maia, Ovídio Britto e Chacal. A afinidade musical de Macalé com Bastos é comprovada desde 2002, quando lançaram o disco ''Real Grandeza''.

No repertório de 11 faixas, Macalé começa com ''Farinha do Desprezo'', música de seu primeiro registro fonográfico em 1973. Depois apresenta a inédita ''Engenho de Dentro'' (parceria com Abel Silva) com samba ''a la Paulinho da Viola''. As evocações continuam com a clássica tocada somente no piano ''Ne Me Quitte Pas'' (Jacques Brel); ''The Archaic Lonely Star Blues'' (Macalé/ Duda), já gravada lindamente por Gal Costa em 1970; ''Corcovado'' (Tom Jobim), cujos acordes foram aprendido por Macalé graças a um vídeo no You Tube; ''Ronda'' (Paulo Vanzollini) e a mais recente parceria com Ana de Hollanda, ''Balada'', com quem divide os vocais. Confira os principais trechos da entrevista que o cantor, compositor, músico e instrumentista concedeu a Folha2.

Existe um conceito por trás deste CD, que é basicamente calcado em uma estrutura voz e violão?

Não tem conceito nenhum. Eu fiz questão de não ter conceito, não ter novidade. A novidade é que cada canção tem uma coisa, mas não tem nenhuma história por trás disso. Cada canção vale por si própria. Se quiser fazer uma historinha delas do princípio ao fim é que estamos falando de amor sempre.

Com toda esta fase de comemoração dos 50 anos da Bossa Nova, elaborar um disco nestes moldes de voz e violão poderia ser uma forma de retomar o gênero, não?

Não, não. Se bem que eu sou influenciado, como toda minha geração, pelo núcleo dela. Agora, voz e violão é uma coisa tradicional no Brasil porque o violão é um instrumento plural e econômico ao mesmo tempo. No sentido de que ele faz o ritmo e a harmonia. E as pessoas me cobram muito já que eu faço muitos shows em que o violão fica ressaltado. Eu tenho muita liberdade quando eu toco comigo mesmo. Só que, no meio do caminho, eu fui sentindo que gosto de tocar com músicos também, principalmente com os meus amigos músicos. Alguns deles estão no disco. Convidei meu amigo Cristóvão Bastos para fazer a direção musical, tanto é que neste disco eu virei palpiteiro (risos).

Falando ainda de Bossa Nova: pra você, ''chega de saudade'', ou não?

Olha, Bossa Nova não existe. O que existe é o samba e o jeito de cantar e tocar do João (Gilberto). Ele me disse: 'Macavas, a Bossa Nova não existe. O que existe é o sam-ba'.

Comente um pouco sobre sua experiência de estudo de música erudita com o Guerra-Peixe. Em outras ocasiões você disse que a música popular brasileira é erudita.

Sim, completamente. Ela é uma coisa difícil de executar, não é a toa que internacionalmente falando ela tem um holofote em cima dela. Meu pai amava ópera, então me levava para o municipal pra ouvir ópera. Eu mesmo não gostava muito daquelas vozes impostadas, mas a música estava ali. Minha avó me levava para a Cinelândia aqui no Rio de Janeiro nos concertos populares. Ali eu vi Villa-Lobos regendo Guerra-Peixe, Guarnieri, uma série de regentes e compositores brasileiros. Se bem que o que me chamava a atenção mesmo na época não eram os concertos - que eu adorava também - mas o bife com batata frita depois dos concertos (risos). Em 61 eu passei a estudar orquestração e composição com o Guerra-Peixe. Depois eu fui copista da Orquestra Tabajara e da Orquestra Sinfônica Brasileira. Foi copiando música que eu aprendi a ler e a escrever.

No My Space tem uma página no seu nome. É você que alimenta as informações?

Eu não. Estão alimentando por mim. Aliás, estão me alimentando, na verdade (risos).

Você é a favor deste tipo de divulgação via internet?

Pra fazer este disco eu fui ao You Tube por causa do ''Corcovado'' e da ''Ne Me Quitte Pas''. Pra mim, internet se chama curiosidade. Eu vi um vídeo com João Gilberto tocando. A câmera pegava exatamente os acordes que o João fazia. Então, na nossa geração, a primeira música que a gente queria tocar era essa. E tinha aquela harmonia estranha na época com acordes dissonantes, etc. A gente batalhava pra tirar esta música. E, de repente, estava eu ali pegando os acordes originais. Quanto à internet, estou fazendo um site em que eu vou disponibilizar músicas que eu canto em casa.

Como você se situa na música brasileira?

Um estranho no ninho (risos). Ainda, pelo visto...
Sobre projetos em andamento. Parece que você está produzindo uma videobiografia...

Sim, deve sair em outubro ou novembro, pois finalmente conseguimos finalizá-la. E sair cantando e tocando por aí o ''Macao'' em turnê.

Pra finalizar: o que é música pra você?

Ah, é tudo. É tudo que falta na humanidade (pausa). Será que esta frase é boa? Sei não, heim?! Peraí, pergunta de novo.

Macalé, o que é música pra você?

Tudo. E ponto final.

(Publicada originalmente em 20/07/2008, na Folha de Londrina)
O som do coração de Myriam Alter
De origem belga, a compositora lança disco no Brasil com brilhante participação do violoncelista Jaques Morelenbaum

Divulgação

‘Where is There’ deve ser apreciado vagarosamente, como quem desfruta de um bom vinho em companhia agradável
‘‘Eu penso que ‘lá’ é onde o amor está. Não importa o quê. Acredito que todos nós que participamos deste disco sabemos disso. É por isso que toda música vem do coração. O que mais? Eu ofereço isso a você, para, dessa forma, tocar seu coração. E espero que seja assim.’’

  Embora intitulado subjetivamente, ‘‘Where is There’’ (‘‘Onde é Lá’’), não escapa do que foi aspirado na declaração da compositora belga Myriam Alter. Se não provoca nenhum tipo de reação, a música perde o seu real desígnio. Lançado pela Biscoito Fino, o álbum sugere tempo; há de ser apreciado vagarosamente, como quem desfruta de um bom vinho e agradável companhia.

  De evidente sofisticação rítmica, as oito composições de Alter revelam um discurso lírico de tonalidades claras. Os improvisos chegam a durar até oito minutos, dando vazão aos solos dos músicos que a acompanham: Pierre Vaian (sax soprano), Greg Cohen (baixo), John Ruocco (clarinete), Salvatore Bonafede (piano), Joey Baron (bateria) e o brasileiro Jaques Morelenbaum, com seu violoncelo virtuoso.

  Se apropriando do jazz como principal linguagem, a compositora conduziu um repertório que demonstra todo o mosaico musical de influências, como de origem espanhola e judaica, alinhados ao universo clássico de sua infância.

  Alter enxergou no violoncelista, que já atuou ao lado de Tom Jobim e Caetano Veloso – só para citar alguns –, a combinação perfeita entre a brasilidade com a música intimista de câmera. Morelenbaum acentua as nuances dramáticas e nostálgicas que o disco evoca em toadas intimistas de contornos arredondados. Destaque para as faixas ‘‘Still In Love’’, ‘‘Come Whith Me’’ e ‘‘Catch me There’’.

(Publicada originalmente em 06/07/2008, na Folha de Londrina)
INCLASSIFICÁVEIS

 

O cantor Ney Matogrosso retorna ao Cabaré do FILO com espetáculo exuberante de imagens e pegada pop sem saudosismo dos anos 70


Divulgação

'Digo ao público: não se satisfaçam com a minha manifestação, vocês têm que procurar se satisfazer com suas manifestações'
 
 
Quarenta e cinco mil micropaetês dourados bordados manualmente revestirão o corpo dele. Na metade do espetáculo, a figura imagética se despe e sugere a nudez em uma segunda pele tatuada. Hoje e amanhã (18 e 19 de junho), o público do Cabaré do FILO poderá conferir o espetáculo ''Inclassificáveis'', que desde 2007 vem percorrendo - e preenchendo - as principais casas de show do país. Desta matéria-prima resultaram a gravação de um CD em estúdio lançado pela EMI e um DVD ao vivo.

Com uma proposta essencialmente pop, Ney incumbiu o pianista Emílio Carrera (ex-Secos e Molhados), que assina a direção musical, de recrutar músicos paulistanos para acompanhá-lo em faixas que revelam Cazuza, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jorge Drexler, Marcelo Camelo, Arnaldo Antunes, entre outros nomes. O estofo instrumental é compartilhado com Carlinhos Noronha (baixo), Júnior Meirelles (guitarra e violão), Sérgio Machado (bateria), DJ Tubarão (percussão e pick up), Felipe Roseno (percussão) e Emílio Carrera (piano e teclado).

O contratenor mais elaborado da música brasileira retorna ao Cabaré depois de quase dez anos para mostrar a unicidade que se forma quando faz do palco, cenário, figurino, iluminação e platéia as mais puras extensões de sua arte. Confira os principais trechos da entrevista que Ney Matogrosso concedeu à FOLHA.

Embora o contexto seja outro, a sua figura em cena, até andrógina, remonta à época dos anos 70 e 80. Como você chegou a essa proposta visual?

Foi um figurino que a gente fez com muita antecedência, antes de eu ter um disco pronto. Quando é um trabalho pop eu me permito um pouco mais de extravagância, liberdade visual, sabe? E esse macacão dourado surgiu quando eu estava vendo um programa de televisão sobre os Incas, as civilizações latino-americanas, e eu vi que tinha uma determinada época do ano em que eles faziam uma oferenda na qual o rei passava ouro em pó pelo corpo e mergulhava num lago. Achei essa imagem muito interessante, um arquétipo latino-americano que me interessou.

Como você lida com a questão do tempo - temática, aliás, muito presente no repertório do CD? Teve alguma fase da vida em que passou por crise?

Não. Eu tive uma dúvida assim quando beirei os 60. Eu não sabia se podia continuar usando as roupas que uso, se tinha alguma coisa que mudar em mim; eu fiquei inseguro. Mas não durou muito tempo, porque quando fiz 60 anos vi que nada tinha mudado, que eu era o mesmo, que tudo poderia continuar como era e que não tinha essa história não.

Recentemente você comentou que estimula o seu público ao invés de provocá-lo. O que você espera do seu público e o que você acha que seu público espera de você?

Eu não sei o que esperam de mim, mas o que eu percebo é que, antes de chegar lá eles já são receptivos a qualquer coisa que eu possa mostrar de mais provocador. Eles gostam disso. O que eu posso notar é que quanto mais eu libero isso, mais eles gostam. Eu fico imaginando que talvez seja uma maneira de se satisfazerem. Talvez eu faça e diga coisas dentro do show que eles gostariam de fazer e dizer, mas eu também digo o seguinte: ''não se satisfaçam com a minha manifestação, vocês têm que procurar se satisfazer com suas manifestações''.

Quando você ouve o que está sendo proposto de novo na música brasileira, existe alguma figura que te desperte a vontade de dirigir um espetáculo como você já fez em outras ocasiões?

Eu fui ver na semana passada o show do Toni Platão e fiquei extremamente impressionado com a qualidade do que vi ali, sabe? E uma surpresa porque ele tem um material vocal que me surpreendeu. Eu já o tinha visto na televisão antes, mas não tinha observado isso, porque talvez isso não estivesse lá. Agora, no show, eu observei uma potência vocal que me deixou muito impressionado, um roteiro do show muito interessante, uma luz... Então, é uma pessoa que eu até já me coloquei à disposição, se ele precisar de mim, e se eu puder ajudá-lo de alguma maneira, estou às ordens.

Certa vez, Maria Bethânia disse que ''a música ainda pode nos salvar''. Você acredita nisso?

Não sei em que contexto ela falou isso, mas eu acho que a música... nos coloca numa outra dimensão. Ela pode ser curativa. Acho que a música ajuda em muitos sentidos, ela informa, ela pode aliviar tristezas, ela pode muitas coisas. A música é uma manifestação artística muito poderosa; talvez, das mais poderosas.

(Publicada originalmente em 18/06/2008, na Folha de Londrina)
Elza para embriagar a alma e celebrar a vida
Cantora promete encantar com 'Beba-me', show que abre o circuito musical do Cabaré do FILO, em Londrina

Renato Forin Jr/Arquivo Pessoal

'Eu acho o seguinte, você tem que comemorar todos os seus dias de vida. Está viva, cuide', diz Elza
As portas do Cabaré do FILO serão abertas hoje (12 de junho), com uma festa baile que celebra as quatro décadas de festival. Entretanto, para muitos, a grande estréia do evento fica a cargo de Elza Soares, que entoará as primeiras notas rascantes amanhã à noite, no show ''Beba-me Ao Vivo'', fruto da divulgação de seu primeiro DVD de carreira, gravado pela Biscoito Fino.

O nome sugere a divertida brincadeira que a cantora fez com a letra de Roberto Martins e Mário Rossi, ''Beija-me''. Além desta, Elza revisita grandes sucessos que ficaram registrados com sua voz única e estilo primoroso de interpretar, como ''Se Acaso Você Chegasse'', de Lupicínio Rodrigues/Felisberto Martins, que deu título ao seu primeiro disco, de 1960, além de novos compositores, como Julinho Rasta e Kátia, em ''Rap da Felicidade''.

Entretanto, o que talvez mais se aproxime de sua poética de vida sejam as palavras de Chico Buarque, em ''Dura na Queda'': ''Vagueia, devaneia/ Já apanhou à beça/ Mas pra quem sabe olhar/ A flor também é ferida aberta/ E não se vê chorar''.

Presença marcante no Cabaré de 1999, ocasião em que foi agraciada por uma chuva de flores logo após o show, a artista deixou um rastro de saudosos fãs ávidos por um pouco mais da figura que foi premiada como a melhor cantora do milênio pela BBC de Londres, em 2000.

Elza Soares. Elza Conceição. Elza é todas em uma só. Elza para embriagar a alma e celebrar a vida. Bebam Elza. Leiam Elza. A seguir, os principais trechos da entrevista que a cantora concedeu à FOLHA por telefone.

Como é retornar à cidade cuja platéia a recebeu com chuva de flores após seu último show em 1999?

Pois é! Foi maravilhoso este banho de rosas. Foi a coisa mais maravilhosa que eu já vi. Estou com uma saudade imensa, com vontade de chegar aí correndo pra rever esta gente maravilhosa. Estou chegando aí!

E o repertório do show vai seguir basicamente o mesmo roteiro do DVD?

É o ''Beba-me''. Mas, a gente sempre tem uma ou outra carta guardada na manga. E isso a gente não revela; fica guardado...

O que a motivou seguir em frente na gravação do DVD ''Beba-me Ao Vivo'' dois dias após uma cirurgia de diverticulite?

Eu acho que foi a maior maldade que fizeram. Eu estava recém-saída do hospital e me disseram que eu tinha que fazer porque já estava tudo pago. Aí foi médico, enfermeira, marido, toda uma equipe pra me ajudar a pisar no palco pra depois um cara me dizer que fez isso tudo pensando que eu iria morrer. Eu disse: ''Você vai ter uma grande surpresa e você vai ver o que Deus preparou pra mim; pois quando Deus risca, ninguém rabisca''. Foi aí que eu mostrei o que a gente é: um pernão, um corpão, matando todo mundo de emoção, graças a Deus.

A que você atribui a aproximação de um público cada vez mais jovem que acompanha a sua carreira? Seria pelas incursões que você já fez em gêneros como hip hop, funk, entre outros?

É muito bonito isso, é muito gostosa essa juventude. Eu fui pedida em casamento no palco, lá em Belo Horizonte. Então, eles ficam tão alucinados, que me vêem de igual pra igual, sem diferença. Quando eu gravei o CD ''Vivo Feliz'', tem muito a ver com isso, do hip hop. Eu canto funk dentro do meu show. Tem de tudo, só não tem ''Créu, créu, créu, créu, créu, créu...'' (risos). Os jovens não estão ali pra ver besteira, pra ver saudosismo, falar do passado chorando. Eu estou ali pra passar energia e levar conhecimento pra este Brasil que ficou muito tempo tampando os ouvidos da juventude. É preciso que alguém vá, diga e mostre pra ele. Aí eu vou com a minha mini-mini-mini-mini-saia escaldante, incrível. E eu, com certeza posso.

Como a Elza Soares se situa na música brasileira?

Eu me sinto como um soldado raso em busca de um quartel mais sábio, mais consciencioso, mais igual. Eu tenho muito medo da fama, pois a fama vive junto com a fome - só mudam duas vogais. Quando você é sargento você manda muito, quando é tenente-coronel, então, nem se fala. O soldado raso está sempre ali dizendo ''sim, senhor'', ''não, senhor''; obediente, respeitoso e sábio.

E você obedece a quem, ou a quê?

Eu obedeço aos mandamentos de Deus - o que Ele determina, eu sigo. E obedeço muito a mim mesma. Me observo e sei o que está errado, o que está certo, mas não porque eu seja sabichona e saiba mais que todos. A gente sabe quando acerta e erra.

É comum, quando você concede entrevistas, referir-se a si própria em terceira pessoa, como ''A Elza é assim'', ''A Elza gosta disso'', e por aí vai. Tem alguma explicação ou é mero hábito?

É mesmo, né? Eu acho que, como eu não canto em casa, a Elza Soares só existe no palco, pois em casa ela está muito distante disso. É pra não confundirem com a Elza da Conceição, então eu digo desta forma. Mas vocês é que fizeram isso, que colocaram - graças a Deus - a Elza Soares lá em cima, com este prestígio todo. Agradeço muito à imprensa por ter me dado tanta coisa que eu gosto. Eu vou pro café da manhã e me lembro de vocês, vou almoçar e me lembro de vocês. Vou pra minha cama que tem lençol - que era o que eu sonhava muito em ter quando era criança além de imaginar que também comeria em um prato de louça algum dia. Tudo isso vocês me deram. Muito obrigada, mesmo!

O seu tempo é sempre o presente, Elza?

Eu sempre digo ''My name is now''. Meu nome é agora. Então é agora que você tem que viver o que Deus te deu. O amanhã deixa por conta do agora. Eu acho o seguinte, você tem que comemorar todos os seus dias de vida. Está viva, cuide. Aproveite cada momento e acredite que o hoje é sublime. Eu quero que as pessoas me vejam no palco. Eu estou convidando todo mundo pra ver uma Elza Soares - ''a'' Elza, aquela de quem eu falo sempre... (risos) - pra se espelhar, pra ter vigor, ter o poder da juventude, ter uma criança viva. E eu a sustento muito bem, e tenho o maior carinho por ela que me mantém viva, maravilhosa e gostosa!

Tem ouvido muita música?

Ouço sim. Gosto muito do Rappa. Aliás, é tão difícil dizer do que eu gosto, pois eu gosto de tanta coisa... Eu gosto de música. Eu não nunca deixo de ouvir o Caetano e o Gil, porque acho que eles representam uma escola tão sábia - musicalmente falando - que você tem que ouvi-los sempre. De internacional também ouço jazz, blues - que são a minha cara - black music. Aliás, é o que dizem: que eu sou uma cantora de black music que canta samba. I'm here!
(Publicada originalmente em 10/06/2008, na Folha de Londrina)
 
Outro Vento

Cantor, compositor e instrumentista carioca lança seu primeiro CD no Brasil após longa experiência artística na França

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Julio Dain revela: ‘Percebo à minha volta um grande afã artístico; as pessoas buscando qualidade’

A delicadeza de arranjos acústicos e minimalistas com direito a improvisações pontuais. Ora com a formação do conhecido trio jazzístico (piano, contrabaixo e bateria), ora com o quarto elemento (percussão) e mais alguns instrumentos solistas. Entretanto, sem espaço para categorização de um disco clássico. ‘‘Outro Vento’’ veio trazer à cena musical brasileira o cantor, compositor, pianista e violonista carioca Julio Dain em seu primeiro CD lançado pela Biscoito Fino.

  Gravado na França, país onde o artista residiu durante quase dez anos, o álbum revela 12 músicas compostas e interpretadas por ele. Para completar a sonoridade do disco, Dain convidou os músicos Bobby Rangell (sax e flauta), Edivandro Borges (trombone), Edmundo Carneiro (percussão), Fabrizio Fenoglietto (assovio, baixo acústico e elétrico), Ligiana Costa (coro), Line Kruse (violino) e Luís Augusto Cavani (bateria).

  No ano passado, quando retornou ao Rio de Janeiro, além do reconhecimento do público, Dain também foi selecionado no edital Petrobras Cultural 2007, cujo resultado é a produção de seu novo CD, no qual trabalha em paralelo, embora esteja em ‘‘Outro Vento’’ a direção para a qual o artista se volta atualmente. Com exclusividade para a Folha2, Julio Dain falou, entre outros assuntos, sobre suas experiências em Paris, as influências musicais e a situação da indústria da música. Confira os principais trechos da entrevista. 

A opção de ir para França e desenvolver o seu trabalho musical por lá se justifica por quais motivos? 

Eu parti para a França aos 23 anos, com a mochila nas costas e o desejo principal de conhecer e viver experiências no Velho Mundo. Não sabia que passaria quase 10 anos lá. Quando parti, o meu trabalho estava em processo de construção, ainda não estava com a cara atual, ou seja: focado na forma da canção, sendo esta interpretada principalmente ao piano. Na época, eu era pianista e compunha temas instrumentais, por um lado, e escrevia poesias por outro. Estas duas tendências aos poucos foram se fundindo na forma de canções as quais eu cantava inicialmente ao violão. Então, foi na França que amadureci e compus a maior parte do meu repertório e que desenvolvi arranjos onde me acompanho principalmente no instrumento que toco melhor, ou seja, o piano. Assim, acredito que o grande mérito profissional desta minha estadia foi o de ter construído meu trabalho de modo a poder trazê-lo ao Brasil, digamos, ‘‘pronto’’, sob a forma de um CD. 

Acredita que o território brasileiro está saturado? 

Não. Eu, que voltei há apenas um ano, acredito que a música no Brasil está passando por um momento muito promissor. Embora conheça bem mais o que se passa no Rio do que nos outros Estados, percebo à minha volta um grande afã artístico; as pessoas buscando novidade, qualidade. É verdade que estamos no meio de uma crise imensa no mercado fonográfico, que, aliás, é internacional. Não se sabe bem o que vai ser a profissão de músico no futuro. Com certeza ela vai mudar. Mas sou otimista quanto à adoção de novas soluções, formas de desenvolvimento e estímulo à cultura, como as leis de incentivo e o mecenato (do que, aliás, não posso reclamar, pois meu próximo disco está sendo financiado pela Petrobras Cultural). 

São notáveis em ‘‘Outro Vento’’ algumas harmonias que revelam discretas influências de Chico Buarque, Gilberto Gil, Francis Hime e até Djavan, além de jazz e música clássica. Quais outros artistas e vertentes musicais que você considera fundamentais para a sua formação de instrumentista, cantor e compositor? 

Já ouvi muita coisa diferente e acredito que o meu trabalho reflita esta diversidade, de modo que quase seria possível falar das influências, música por música. De modo geral, minhas influências principais são o jazz e a MPB. Da MPB, poderia citar outros nomes consagrados - como Tom Jobim e Caetano Veloso - ou menos consagrados, mas que são referências igualmente importantes para mim - como Arrigo Barnabé, Luis Tatit, Tom Zé ou Jards Macalé. Sempre gostei dos artistas que ousam sair dos padrões, como Frank Zappa ou Thelônious Monk. Quando comecei a tocar piano, meu ídolo era Bill Evans. E ouvi bastante música clássica. 

Você está no Brasil desde o ano passado. Neste período, retornou alguma vez a França? Sendo contemplado no edital Petrobras Cultural 2007, você irá permanecer no Rio de Janeiro durante toda produção do novo CD em paralelo à divulgação de ‘‘Outro Vento’’? Aliás, há possibilidade de antecipar algo sobre o seu novo CD? 

Sim, eu volto regularmente à França, onde tenho uma filha e, também, uma carreira que não pretendo abandonar, apesar de viver no Brasil. A gravação do novo CD será feita no Rio, mas não me impedirá de fazer viagens de divulgação de ‘‘Outro Vento’’. Na verdade, a agenda de shows fora do Rio ainda não está definida. O futuro CD se chama ‘‘Ficção Científica’’ e reunirá 14 composições minhas. Por enquanto estou em período de seleção do repertório e já cheguei a 18. Chamei para co-produzir o disco comigo um produtor carioca excelente: Paulo Brandão. Estou aberto para outras sonoridades, pois acho que o repertório (como sugere o próprio nome do disco) pede isto.

(Publicada originalmente em 01/06/2008, na Folha de Londrina)
Música para falar e ouvir

Para os visitantes deste blog, uma boa nova: mais espaço para falar e ler sobre música na coluna Musiqueira do portal eletrônico Bonde (www.bonde.com.br). Semanalmente, informações, dicas, entrevistas e comentários a respeito da produção musical brasileira que está a pleno vapor. Galera muito boa lançando discos independentes. Aos poucos, vou contribuindo com a divulgação dos artistas. Segue o link:

http://www.bonde.com.br/bonde.php?id_bonde=1-14

Vai ser bacana receber sua visita por lá!  

Vozes atadas pela emoção
DUPLA NACIONALIDADE - Omara Portuondo e Maria Bethânia fazem amanhã, em Curitiba, o penúltimo espetáculo da turnê nacional em que agregam clássicos de músicas populares brasileira e cubana



Em cena, as intérpretes terão momentos solos, mas espetáculo ganha força quando unem vozes: destaque para a versão em espanhol de ‘O Cio da Terra’
Muito mais que extrapolar - e explorar - a territorialidade de Brasil e Cuba, o encontro de Omara Portuondo e Maria Bethânia concentra o passado e o presente dos países que tanto apresentam elos. Nos laços artísticos, as senhoras míticas estreitam seus talentos com tamanha delicadeza em CD/DVD homônimo, lançado recentemente pela gravadora Biscoito Fino.

Depois de estrear no Canecão (RJ), passar por São Paulo, Maceió, Recife, Brasília, Aracajú, Salvador e Fortaleza, chegou, enfim, a vez do Paraná desfrutar do espetáculo que integra a turnê de divulgação do álbum. Amanhã (8 de maio) a partir das 21h, o público poderá conferir, em apresentação única, Omara Portuondo e Maria Bethânia, juntas, no palco do Guairão, interpretando um repertório calcado em clássicos da música popular cubana e brasileira.

Será a penúltima apresentação da turnê nacional em que o cenário, assinado por Gringo Cardia, alinhado à iluminação, de Maneco Quinderé, revelam nuances destes dois países tão intimamente ligados pela África, já que seus povos são formados por descendentes de escravos trazidos da mesma região, além da religião africana ser tão pulsante nas duas nações. A ambientação meio retrô, com flores de chita, lantejoulas, pássaros e fitas fazem pano de fundo para canções cercadas de beleza e simplicidade que revelam as multicores e sonoridades do Brasil e de Cuba.

As duas damas fazem solos individuais e interpretações juntas, tanto em português quanto em espanhol. Guiadas por Jaime Alem e Swami Jr., respectivos maestros de Bethânia e Omara, (ambos ao violão), também estarão no palco João Carlos Coutinho (piano), Jorge Helder (baixo), Cláudio Brito (percussão), Marcelo Costa (percussão) e o cubano Andres Coayo (percussão).

Embora sejam comuns alterações do roteiro em turnês, não deve faltar boa fatia do repertório do CD, como nos envolventes duetos em ''Palabras'' (Marta Valdés), ''Palavras'' (Gonzaguinha), ''Tal Vez'' (de Juan Formell, diretor do lendário grupo de música bailable Van Van, em som, ritmo base da música cubana), ''Só Vendo que Beleza/ Marambaia'' (Rubens Campos e Henricão) - em releitura que vai do samba à salsa e a uma contagiante levada rap de Omara, e o bolero de tirar o fôlego ''Nana para Un Suspiro - Semillita'' (Pedro Luis Ferrer).

Certamente, um dos pontos altos do espetáculo revela-se quando suas vozes são unidas em ''Tierra em Celo'', versão em espanhol por Alfredo Fressia para ''Cio da Terra'' (Chico Buarque e Milton Nascimento). Também vertida para o espanhol por Fressia, a bela releitura para ''Gente Humilde'' (Garoto, Vinicius de Moraes e Chico Buarque).

Em seu momento solo, Omara oferece sucessos do cancioneiro cubano como os boleros ''Vinte AÀos'' (Maria Tereza Vera), ''Lo que me Queda Por Vivir'' (Enrique Benbury) e ''Dos Gardênias'' (Insolino Carillo).

Já Bethânia desvela sozinha canções brasileiras como ''A Bahia Te Espera'' (Chianca de Garcia e Herivelton Martins) e ''Mensagem'' (Aldo Cabral e Cícero Nunes), além de inéditas em sua voz como ''Havana-me'' (Joyce e Paulo Cesar Pinheiro). Outras gratas surpresas de Chico Buarque e Gonzaguinha e a inédita ''Doce'' (Roque Ferreira).

Na coletiva de imprensa realizada em março, na sede da Biscoito Fino, no Rio de Janeiro, as senhoras revelaram suas expectativas com relação ao espetáculo. ''Temos trabalhado muito, mas para mim é sempre pouco. Eu gosto de ensaio e por mim poderíamos ter tido mais tempo para ensaiar - Dona Omara canta seus grandes sucessos e me faz chorar em cada ensaio -, mas o show está feito. Espero que as pessoas cheguem com o coração azul, vermelho e branco, ou seja, Cuba e Bahia'', brincou. A cubana, conhecida no mundo todo após sua participação no documentário ''Buena Vista Social Club'', de Wim Wenders, resumiu o que espera das apresentações: ''Muito amor, muita energia e muita sinceridade''.

De Curitiba, Omara e Bethânia seguem com o espetáculo para Porto Alegre, no próximo sábado, onde encerram a turnê nacional. Após a série de show pelas principais capitais brasileiras, elas partirão para a Argentina e Chile.

Este encontro raro e único entre duas culturas tão intimamente ligadas e, mais que isso, entre duas grandiosas intérpretes de veia cênica e personalidades distintas, reflete o respeito e a admiração mútua pela história de Cuba e Brasil e o produto de sua arte.

(Publicada originalmente em 07/05/2008, na Folha de Londrina)


Virtuose do CHORO contemporâneo

ENTREVISTA - Nascido na Lapa, grupo da nova geração de chorões e sambistas lança o segundo CD calcado na improvisação e arranjos excepcionais


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Novo trabalho se destaca pela variedade de gêneros, com releituras de antigos sucessos e participações especiais
Um pouco de história. Na década de 30, o chorinho teve intensa participação nas rádios transformando canções como ''Tico-tico no Fubá'' e ''Brasileirinho'' em verdadeiros hinos nacionais.

Hoje, enquanto a maior fatia das emissoras oferece aos seus ouvintes uma programação atulhada de músicas ''vendáveis'', o gênero instrumental vai de encontro a esse panorama e se revitaliza graças à devoção de jovens músicos que valorizam a riqueza de suas raízes. Assim ocorreu com o ''Tira Poeira'', grupo formado por sambistas e chorões que lançou recentemente o CD ''Feijoada Completa'', pela Biscoito Fino.

Cinco anos após o primeiro disco, Caio Márcio (violão), Henry Lentino (bandolim), Samuel Oliveira (saxofones), Fábio Nin (violão de 7 cordas) e Sérgio Krakowski (pandeiro), despertam a atenção pela variedade de gêneros apresentadas neste trabalho atual. É neste rico material sonoro que Maria Bethânia, Lenine, Olívia Hime e DJ Sany Pitbull também navegam ao participarem de algumas faixas do CD. Belíssimas releituras de ícones como ''Gente Humilde'' (Chico Buarque, Garoto e Vinicius de Moraes), ''Trenzinho Caipira'' (Heitor Villa-Lobos), ''Atrás da Porta'' (Francis Hime e Chico Buarque) se encontram ao lado da inédita de Baden Powell, ''Canto de Yansã''.

Improviso, arranjos elaborados e destreza são alguns predicados que este jovem grupo, originado na Lapa (bairro boêmio carioca), utiliza sem mutilar a tradição. Sérgio Krakowski, percussionista do ''Tira Poeira'', concedeu uma entrevista com exclusividade para a Folha2. Confira, a seguir, os principais trechos.

Embora o alicerce de vocês esteja calcado no regional, são perfeitamente notáveis as nuances de vários gêneros musicais, como a bossa nova, jazz, samba, funk, etc, entretanto mantendo uma linearidade. Você atribui isso a predileção do grupo pelas experimentações ou pela diversidade de influência de cada integrante?

Acho que a nossa fonte primeira foi o choro. É de onde nós viemos e não deixamos de carregar essa bagagem mesmo que neste segundo disco não tenhamos gravado nenhum choro. A idéia foi escolher um repertório de canções e interpretá-las a nossa maneira. Depois de gravar o primeiro disco, já tínhamos feito os arranjos de Atrás da Porta e Consolação, além de tocarmos também o Chega de Saudade nos nossos shows. Percebíamos que o público recebia muito bem estas músicas e que mesmo sem cantarmos as letras, elas emocionavam implicitamente. Resolvemos, então, estender isso e criar um repertório todo baseado neste conceito.

Como nascem os arranjos das novas versões, como, entre outros casos, ''Trenzinho Caipira'' (Villa-Lobos), ''Eleanor Rigby'' (John Lennon e Paul McCartney), e até a inédita, ''Canto de Yansã'' (Baden Powell)? Todos integrantes assinam as criações? E o repertório de ''Feijoada Completa'', como foi definido?

O repertório teve como mote as canções. Algumas delas já tinham um arranjo criado coletivamente pelo grupo (Atrás da Porta, Consolação e Trenzinho Caipira). O arranjo das outras foi individual. Cada integrante se propôs a fazer um, dois ou até três arranjos e apresentar para o grupo. A partir daí todos deram palpites e os arranjos sofreram modificações. De qualquer forma, todos já estamos tão acostumados com a linguagem do grupo que mesmo fazendo individualmente os arranjos, eles saíram com a identidade do ''Tira Poeira''.

Maria Bethânia, que interpreta ''Gente Humilde'' (Garoto/Chico Buarque/Vinicius de Moraes), e que também convidou vocês a participarem do CD e DVD ''Brasileirinho'', surge como uma verdadeira chancela de qualidade musical. Como aconteceu o encontro entre vocês?

Foi através da gravadora. A Bethânia já era da Biscoito Fino e ganhou o nosso primeiro disco. Ela ficou muito feliz com o nosso trabalho e então surgiram os convites de arranjar o ''Padroeiro do Brasil'' para o CD e posteriormente de fazer o show e gravar o DVD. Foi uma grande honra e uma aprendizagem sem preço. O arranjo foi feito pelo nosso bandolinista Henry Lentino que, inclusive, incluiu algumas referências ao choro.

Novas interpretações de canções já gravadas soam como uma linguagem autoral, mas vocês também trabalham com composições próprias?

Ainda não estamos trabalhando com as nossas composições, mas isso virá no futuro.

(Entrevista publicada originalmente em 04/05/2008, na Folha de Londrina)

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